Há uma forma de intolerância que se disfarça muito bem, que não aparece aos gritos, não se assume como censura e nem sequer se apresenta como exclusão. Vem quase sempre embrulhada em palavras bonitas como tolerância, inclusão, diversidade, respeito, comunidade (acho fantástica esta última). Mas, quando alguém dentro desse mesmo espaço ousa pensar de forma diferente, o verniz estala depressa.
Foi isso que comecei a sentir recentemente.
Um amigo de há muitos anos, perante uma opinião minha sobre a utilização da bandeira arco-íris em edifícios públicos, escreveu-me que eu “já não era quem gostava muito de ir a Nova Iorque para as paradas gay” e que apreciava ver o Empire State Building iluminado com as cores do arco-íris. Terminou dizendo que, desta vez, não aguentou e que prometia não fazer mais comentários.
A minha resposta foi simples e direta. Continuo a gostar disso tudo, continuo a respeitar quem se revê nesses símbolos e continuo a reconhecer a importância histórica de muitas lutas por dignidade, respeito e igualdade perante a lei. O que não aceito é que qualquer discordância sobre o uso político, institucional ou permanente desses símbolos seja imediatamente tratada como traição, vergonha ou retrocesso moral.
Uma coisa é respeitar pessoas e outra, muito diferente, é aceitar sem discussão todos os símbolos, todos os slogans, todas as tácticas e todas as apropriações políticas feitas em nome dessas pessoas.
Aqui, começa o grande problema.
Durante anos ouvimos, sempre a partir da esquerda, que a direita é intolerante, discriminatória, preconceituosa e cheia de “fobias”. A acusação é repetida tantas vezes que se transforma numa espécie de verdade automática. Mas a minha experiência pessoal tem mostrado uma outra realidade. Muitos dos que mais falam em tolerância são os primeiros a cancelar, bloquear, silenciar ou excluir quem não repete a narrativa dominante.
Tenho amigos de longa data que me cancelaram nas redes sociais por causa das minhas opções políticas. Alguns bloquearam-me, outros afastaram-se, outros ainda tratam a divergência política como se fosse uma falha moral. Não porque eu os tenha insultado, não porque os tenha discriminado, nem porque alguma vez tenha defendido que alguém deve ter menos direitos. Mas porque deixei de alinhar com a cartilha esperada.
Então eu tenho de perguntar: e o intolerante sou eu?
Nunca bloqueei ninguém por pensar de forma diferente. Nunca deixei de considerar amigo quem discorda de mim. Nunca achei que uma pessoa de esquerda, de direita, liberal, conservadora, socialista ou comunista devesse ser reduzida ao rótulo político que transporta. Posso combater ideias com dureza. Posso criticar movimentos, partidos e estratégias ideológicas. O que não faço é, da divergência uma sentença de expulsão pessoal.
É precisamente isso que tantos sectores instrumentalizados pela esquerda radical fazem: confundem crítica política com ódio, discordância com discriminação, liberdade de pensamento com ameaça.
A realidade LGBTQIA+ (prefiro usar o termo não heterossexual) não pertence à esquerda. A orientação sexual de uma pessoa não determina automaticamente o seu voto, a sua visão sobre o Estado, a sua opinião sobre símbolos em edifícios públicos, a sua posição sobre liberdade de expressão ou a sua leitura sobre os limites do activismo. Ser homossexual, lésbica, bissexual ou trans não obriga ninguém a aderir a uma agenda ideológica fechada.
E talvez seja isso que incomoda tanto.
Porque uma pessoa não heterossexual que não se submete à narrativa dominante desmonta uma das maiores ilusões políticas dos últimos anos que é a ideia de que certas minorias pertencem, por natureza, a um campo ideológico específico. Só que não pertencem. As pessoas não são propriedade de partidos, movimentos ou plataformas de ativismo pois têm cabeça própria, podem ter contradições e têm liberdade.
Foi nesse espírito que escrevi a uma pagina que trata destes temas, a propor um ciclo de conversas públicas ou debates sobre temas que atravessam a realidade das pessoas não heterossexuais e um debate democrático mais amplo sobre liberdade de expressão, discriminação, tolerância, preconceito, legislação, símbolos em edifícios públicos, manifestações, ativismo, cidadania, direitos individuais, deveres cívicos e convivência democrática.
A proposta era simples e consistia em criar um espaço sereno, plural e intelectualmente honesto, onde diferentes sensibilidades pudessem discutir estes assuntos sem slogans, sem trincheiras e sem patrulhas ideológicas.
Até agora, não obtive resposta.
Não posso afirmar com certeza qual é o motivo. O silêncio, por si só, não prova nada. Mas é difícil não reparar num padrão. Quando alguém questiona a narrativa dominante dentro destes meios, a porta raramente se abre. E quando se propõe debate, muitas vezes surge o silêncio. Não porque faltem temas nem porque falte urgência, mas talvez porque um debate verdadeiramente plural obrigaria demasiadas pessoas a sair da zona confortável onde só falam com quem já concorda com elas.
A tolerância mede-se precisamente, não no aplauso aos iguais, mas na capacidade de ouvir quem nos incomoda.
É fácil defender a liberdade de expressão quando todos dizem o mesmo. É fácil falar de diversidade quando a diversidade é apenas estética, sexual ou identitária. Mais difícil é aceitar diversidade de pensamento. Mais difícil é tolerar alguém que pertence a uma minoria, mas recusa ser usado como peça decorativa de uma causa partidária. Mais difícil é admitir que uma pessoa pode defender direitos individuais, respeitar todas as orientações sexuais e, ao mesmo tempo, criticar a captura ideológica desses temas.
A minha posição é essa, porque eu respeito pessoas e não venero cartilhas, defendo direitos sem aceitar chantagens morais, acredito na liberdade e não na obrigação de repetir slogans. Não deixarei que me chamem intolerante apenas porque me recuso a obedecer à narrativa dominante de grupos que, muitas vezes, confundem comunidade com unanimidade e respeito com submissão.
Porque, no fim, a pergunta continua a impor-se:
Quando alguém é cancelado, bloqueado, excluído ou silenciado apenas por pensar de forma diferente, onde está realmente a intolerância?