A liberdade não serve apenas para confirmar uma narrativa, serve, acima de tudo, para permitir discordar dela
Durante décadas, instalou-se em Portugal a ideia tão repetida que passou a soar quase natural de que a Revolução dos Cravos pertence a um determinado campo político. Como se Abril tivesse sido conquistado para legitimar uma visão ideológica específica e não para garantir algo muito mais simples e muito mais exigente: LIBERDADE.
Convém lembrar o óbvio. Abril não trouxe uma cartilha apesar de ser essa a vontade dos comunistas. Trouxe o fim da censura, o pluralismo e o direito ao contraditório. Trouxe, acima de tudo, a possibilidade de coexistirem visões diferentes dentro do mesmo espaço democrático. E isso inclui, inevitavelmente, o direito de questionar ideias que hoje são apresentadas como intocáveis.
O problema começa quando se confunde direitos fundamentais com agendas políticas concretas. Defender que ninguém deve ser discriminado é um princípio estruturante de qualquer sociedade civilizada. Mas isso não implica que todas as políticas públicas feitas em nome desse princípio estejam acima de qualquer escrutínio. Não estão. Nem devem estar.
Transformar qualquer discordância numa forma de preconceito é uma estratégia eficaz para fechar o debate. Mas não só não o eleva como o empobrece. Porque deixa de se discutir o mérito das ideias e passa-se a discutir a moralidade de quem ousa questioná-las.
É aqui que entra uma das ferramentas mais usadas no discurso político contemporâneo que é a da construção de um adversário simplificado. Fala-se de “extrema-direita” como se fosse um bloco uniforme, movido por intenções obscuras e orientado para uma regressão civilizacional inevitável. Esta narrativa pode mobilizar emocionalmente, mas evita o essencial de discutir propostas concretas e perceber por que razão encontram eco em parte da sociedade.
O crescimento de partidos como o Chega não resulta de um acidente histórico nem de uma anomalia democrática. Resulta de escolhas eleitorais feitas por centenas de milhares de portugueses. Ignorar isso, ou reduzi-lo a uma falha moral do eleitorado, é não só intelectualmente preguiçoso como politicamente ineficaz. Porque não só não resolve o problema como se limita a negá-lo.
Outro traço recorrente deste tipo de discurso é o recurso ao medo. A ideia de que qualquer revisão, qualquer debate ou qualquer discordância abrirá inevitavelmente caminho a uma regressão generalizada de direitos. Este argumento, frequentemente apresentado como evidência, raramente é demonstrado. Funciona mais como alerta emocional do que como raciocínio estruturado.
Mas talvez o ponto mais delicado seja a tentativa de definir quais são as opiniões legítimas dentro de uma democracia. Quando se começa a dizer que certas posições não são respeitáveis, está-se a dar um passo perigoso conforme pudemos verificar durante 48 anos. Porque o critério deixa de ser a força do argumento e passa a ser a conformidade com uma determinada visão dominante.
Uma democracia madura não se protege eliminando o desacordo. Protege-se garantindo que ele pode existir sem ser automaticamente desqualificado. E isso exige o princípio simples de que ninguém deve ser colocado fora do debate à partida.
Defender Abril hoje não é repetir frases feitas nem invocar memórias seletivas. É garantir que o espaço de liberdade que ele abriu não é progressivamente fechado em nome de boas intenções. Porque a história mostra, vezes demais, que a erosão da liberdade raramente começa com proibições explícitas. Começa com a tentativa de definir quem pode falar e sobre o quê.
A liberdade não é confortável. Nunca foi. Implica aceitar que existem ideias com as quais não concordamos, discursos que nos incomodam e posições que rejeitamos. Mas é precisamente isso que a distingue de qualquer forma de controlo disfarçado.
Se a liberdade passa a servir apenas para validar uma narrativa, então deixa de ser liberdade. Passa a ser um mecanismo de legitimação ideológica com aparência democrática.
E isso, convém dizê-lo sem rodeios, não foi o que Abril prometeu.