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O que é, afinal, a tal “comunidade LGBTQIA+”?

Um condomínio fechado com bandeira própria, senha à entrada e newsletter quinzenal ou apenas algum tipo de comunidade isolada a viver longe da sociedade?

Começo com uma pontinha de sarcasmo, e a pergunta parece absurda, mas é justamente esse o ponto.

Quando deixas que seja a tua homossexualidade a definir-te, isso significa que não tens mais nada para oferecer à sociedade em geral e a quem te rodeia em particular.

Costumo partir desta ideia para discutir algo que me incomoda há muito tempo e que é a forma como rótulos identitários, que nasceram para proteger pessoas concretas de discriminação, se transformaram em caixas onde essas mesmas pessoas são enfiadas, muitas vezes por boa intenção, outras por oportunismo político e, pior ainda, onde acabam por se enfiar sozinhas criando uma forma de auto-segregação…

Vamos ser honestos. Não existe, pelo menos por enquanto e que eu saiba, um bairro murado chamado “Comunidade LGBTQIA+”. Não tenho conhecimento da existência de escolas LGBTQIA+, hospitais LGBTQIA+, supermercados LGBTQIA+. As pessoas que são homossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, trans ou outra coisa qualquer vivem onde toda a gente vive, trabalham onde toda a gente trabalha, pagam impostos como toda a gente paga e têm problemas tão glamorosos como a conta da luz ao fim do mês.

A ideia de “comunidade” pode ser útil nalguns contextos como por exemplo para organizar apoio, criar redes de solidariedade, partilhar experiências comuns. Mas quando essa “comunidade” é tratada como um bloco homogéneo, fechado sobre si mesmo, quase como uma minoria exótica a ser “curada”, “protegida”, “empoderada” em permanência, o efeito deixa de ser integrador e passa a ser segregador.

De tanto repetir “comunidade LGBTQIA+”, começamos a falar das pessoas como se vivessem fora da sociedade, numa espécie de reserva identitária. E quando se trata como tribo, não é difícil que alguns acabem por se comportar como tal, criando a ideia do “nós, os iluminados” e “eles, os atrasados”. O resultado disto é uma enorme clivagem, muito ruído perfeitamente desnecessário e muita desconfiança mútua.

A sexualidade é uma parte importante da vida de qualquer pessoa. Mas é apenas uma parte e não o todo. Portanto, reduzir alguém à sua orientação sexual, seja para atacar ou seja para elogiar é, em essência, a mesma pobreza de olhar sem ver. Claro que o insulto é diferente porque a embalagem é outra, mas o gesto consiste em pegar numa característica do foro privado e usá-la como rótulo público permanente.

Quando alguém faz da sua homossexualidade ou da sua heterossexualidade o centro absoluto da sua identidade, o problema não é ser homo, hetero, gay, bi, lésbica ou o que quer que seja. O problema é estar a abdicar de tudo o resto, como o carácter, o trabalho, o talento, o sentido de responsabilidade, a capacidade de amar, de cuidar, de construir, de estabelecer laços.

Se o que te define, antes de mais nada, é aquilo que fazes na cama ou com quem vais para a cama, então alguma coisa ficou pelo caminho. E o problema não é a homossexualidade. O problema é todo o vazio que se cria à volta disso.

Outra coisa que merece ser desmontada são as muito utilizadas expressões de “direitos das pessoas gay”, “direitos LGBTQIA+” ou inúmeras variações do género. Pode parecer apenas uma subtileza, mas afinal não é.

Não existem “direitos gay” separados de “direitos hetero”. Não há um catálogo de direitos à parte, exclusivo para quem encaixa num determinado rótulo. Existem direitos humanos, ponto. O direito a não ser agredido, humilhado, despedido, perseguido ou morto por causa da sua orientação sexual não é um “direito das pessoas gay”. É um direito humano básico.

Porque quando começamos a falar de direitos como se fossem propriedade de “comunidades” específicas, abrimos espaço para duas derivas perigosas. A primeira é a vitimização permanente, em que tudo passa a ser lido como ataque a “uma comunidade”, mesmo quando se trata de questões políticas, jurídicas ou morais que são mais complexas do que isso. A segunda é a reação de recusa, a ideia de que “se são direitos especiais ‘deles’, porque é que eu haveria de apoiar?”, e assim fica montado o palco para o ressentimento, para a demagogia e para as guerras culturais que não resolvem a vida de ninguém.

Porque os direitos que interessam são os que protegem todos, sem exceção. Quando se ganha uma batalha contra a discriminação, não se ganham direitos novos exclusivos para uma minoria mas reforçam-se direitos que, em teoria, já eram de todos.

Durante muito tempo, fez sentido criar espaços de proteção como associações, bares, movimentos, grupos de apoio. Em muitos contextos, ainda continua a fazer sentido. Mas uma coisa é criar refúgios e outra é construir muralhas identitárias com o intuito de separar.

Quando o discurso público insiste em separar “a comunidade LGBTQIA+” do resto da sociedade, a mensagem subliminar clara é que somos um grupo à parte, diferentes, especiais e até mesmo, eventualmente, incapazes de viver em sociedade como um todo. Por esse motivo, muitas pessoas acabam, sem dar por isso, a interiorizar essa ideia, autossegregando-se, autoisolando-se. Só se relacionam socialmente e politicamente com quem “é da comunidade”, só consomem conteúdo “da comunidade”, só confiam em quem fala “em nome da comunidade”.

Isto não só não fortalece ninguém como, pelo contrário, cria fragilidades. Se a força de alguém depende de ser sempre tratado como representante de uma “causa”, no dia em que essa bandeira deixar de ser necessária ou mesmo de estar na moda, essa pessoa fica sem chão. E ninguém deveria depender eternamente da sua condição de “minoria” para poder ter voz.

O que distingue uma pessoa não é o género de quem ama, mas o modo como trata quem está numa posição mais frágil do que a sua, pois o nosso caráter pode avaliar-se pela forma como tratamos quem não nos pode dar nada em troca. 

O que interessa, no dia a dia, não é se se é gay, bi, trans, hetero ou se não se quer ter rótulo nenhum. O que interessa é se ajudamos ou se exploramos, se escutamos ou gritamos sempre mais alto, se usamos a experiência de ser discriminados para melhor compreendermos os outros ou para os catalogar à partida, ou até mesmo, se contribuímos para o bem-estar e evolução dos que nos rodeiam ou se vivemos eternamente em modo “eu, a minha dor e a minha bandeira”.

Com este texto, não pretendo negar que existam problemas específicos. Sei que há discriminação, sei que há violência, sei que há injustiças reais que atingem pessoas concretas por causa da sua orientação sexual ou identidade de género. Ignorar isso seria uma tremenda desonestidade da minha parte. Mas o que está em causa é recusar que a resposta a essas injustiças seja dividir ainda mais, radicalizar ainda mais, fragmentar ainda mais a sociedade em “comunidades” que se olham de longe, com desconfiança, como se estivessem em universos paralelos.

Talvez seja altura de mudar o foco, com menos conversa sobre “comunidades” abstratas e mais atenção às pessoas concretas, com menos rótulos identitários e mais exigência de carácter, com menos direitos “para este grupo” ou “para aquele grupo” e mais direitos universais que sejam aplicados com rigor a todos.

Afinal, a sexualidade pertence somente ao foro privado. Agora o caráter, esse sim, é público. Isso é o que devia estar em julgamento quando olhamos para alguém e não a sigla que ele ou ela usa na “bio” das redes sociais.

Talvez desta forma possamos unir várias causas numa só, ganhando a força que a união nos traz, conquistando a igualdade de direitos e oportunidades para todos…

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