Por toda a Europa, o multiculturalismo tem mostrado de forma brutal os seus verdadeiros efeitos. Não a riqueza cultural prometida, mas guetos fechados, tensões étnicas permanentes e uma sensação crescente de fragmentação social. Nos subúrbios franceses, nos guetos suecos, nas ruas de Birmingham ou nos bairros de Bruxelas, a utopia transformou-se em instabilidade, violência e desconfiança.
Em Portugal, ainda não temos bairros em chamas, mas não nos iludamos porque o facto de não estarmos no mesmo ponto não significa que estejamos imunes. Significa apenas que estamos numa fase precoce. A vantagem é que temos tempo, e tempo é oportunidade. Podemos aprender com os erros dos outros e evitá-los.
O multiculturalismo falhou porque nasceu da ilusão de que culturas radicalmente distintas poderiam coexistir sem uma cultura comum como base. Acreditou-se que poderíamos manter as nossas liberdades, direitos, garantias e modo de vida enquanto aceitávamos, sem qualquer exigência de integração, comunidades inteiras que seguem valores que colidem frontalmente com os nossos. O resultado salta à vista com guetos onde o Estado não entra, bairros onde a polícia só entra em confronto, zonas onde a lei é substituída por códigos paralelos e onde jovens nascidos na Europa rejeitam ser franceses, suecos, belgas ou alemães, preferindo identidades ressentidas e hostis às sociedades que os acolheram.
Em Portugal, setores da esquerda continuam a defender este modelo falhado. Falam de inclusão como sinónimo de cedência, confundem diversidade com aceitação acrítica de práticas contrárias aos valores democráticos e acusam de racismo ou xenofobia quem defende o bom senso. Não é racismo defender a nossa cultura, é garantir que valores que nos definem, como a liberdade, a igualdade perante a lei e o respeito pelos direitos humanos não são sacrificados em nome de costumes incompatíveis com esses mesmos valores.
A imigração em Portugal deixou de ser regulada pelo interesse nacional e passou a ser gerida pela chantagem emocional. Deixou de se exigir integração cultural, situação em que o imigrante mantém elementos da sua identidade e cultura de origem mas adota como suas as regras, valores e referências comuns do país onde vive e quem questiona o modelo vigente é acusado de desumanidade. Mas realmente desumano é empurrar imigrantes para bairros degradados, sem garantias de emprego digno e sem políticas de coesão. Desumano é permitir que cresçam em guetos sem futuro.
Pior ainda é ver partidos como o Livre ou o Bloco de Esquerda a alimentar identidades fechadas para recolher dividendos políticos. Indignam-se mais com a crítica a costumes opressivos do que com a própria existência desses costumes mesmo quando eles atentam contra os direitos das mulheres, das crianças ou das próprias minorias.
Em Portugal ainda vamos a tempo de recusar este caminho. Precisamos de uma integração firme, clara e exigente. Não se trata de rejeitar quem chega, mas de estabelecer regras. Quem vem deve saber que há valores inegociáveis que nos definem: a liberdade individual, a igualdade perante a lei, a democracia, o respeito pela dignidade humana. E estes não podem ser postos em causa.
A verdadeira convivência exige fronteiras culturais claras. Se aprendermos com os erros da Europa, evitaremos repeti-los. O multiculturalismo morreu, e quanto mais cedo o enterrarmos, mais depressa poderemos construir um futuro coeso, livre e genuinamente plural, onde todos, sem exceção, se possam rever.
Vitor Grade