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Os cães ladram, a caravana passa… 

E a Europa fica sentada no sofá apenas a ver

“Os cães ladram mas a caravana passa”. Estou em crer que isto, infelizmente para nós, é só o começo.

Durante séculos, a Europa foi o farol da civilização, política, económica, tecnológica, cultural e militarmente. Mas isto não foi obra do acaso. Foi o resultado de uma história longa, construída sobre a razão grega, a organização romana, a moral judaico-cristã e a coragem dos povos europeus.

Hoje, esse farol está meio apagado, quase moribundo. Não porque o mundo tenha ficado subitamente mais justo ou mais pacífico, mas porque fomos nós que, voluntária e discretamente, fomos “desligando as luzes”.

Durante décadas, andámos a brincar aos hippies institucionais com “peace and love”, “make love not war”, selfies pela paz, hashtags pela tolerância, declarações solenes sobre o fim da História. Tudo muito bonito e muito, mas muito justo… num mundo imaginário.

Enquanto isso, o mundo real, lá fora, fazia outras coisas. Uns foram investindo em armamento, outros em indústria pesada e tecnologia estratégica e outros ainda em energia, rotas comerciais e influência geopolítica.

Nós? Nós íamos desmantelando forças armadas, desindustrializando economias muito em nome de uma agenda climática, entregando a nossa soberania energética e estratégica a terceiros, e convencendo-nos de que a “comunidade internacional” e umas resoluções de Bruxelas resolvem tudo.

Como resultado, perdemos a nossa soberania energética, perdemos a nossa soberania ia alimentar, perdemos a nossa soberania na defesa, perdemos o nosso poder de resistência e, pior ainda, o nosso poder de argumentação tal como a cigarra que canta enquanto a formiga se previne para o inverno. Quando se é moralmente altivo, mas materialmente fraco, ninguém leva a sério. E é aí que estamos.

Chegámos a um ponto em que a caricatura quase se confunde com a realidade, tal como uma Joana Marques a provocar crises de acne a um qualquer Anjo. Se eles nos atirarem mísseis, nós atiramos-lhes com RSI’s, programas de inclusão, linhas de apoio psicológico, conferências sobre paz sustentável ou até mesmo, com uma Mariana Mortágua a gritar que temos de “Taxar os Ricos”. Se eles fizerem ciberataques, nós respondemos com um grupo de trabalho, um power-point e uma estratégia para a descarbonização em 2030. Se eles fizerem alianças militares e económicas, nós fazemos pactos verdes, cartas de valores e mais um código de conduta para linguagem inclusiva nas instituições.

É ironia, mas não é só ironia. É uma forma de dizer o essencial, que perdemos o instinto de sobrevivência, que achamos que a História acabou e que agora é tudo compliance, regulamento, comissões, relatórios e sensibilização.

Mas a parte mais trágica é que enquanto o mundo se prepara para décadas de competição dura, tanto tecnológica, como militar, demográfica e energética, nós andamos entretidos com guerras culturais internas, muitas vezes transformadas em teatro moral.

Em vez de debatermos seriamente a nossa defesa, a energia de que necessitamos, a natalidade em claro declínio, a indústria moribunda, a segurança alimentar ou a nossa crónica falta de autonomia tecnológica, gastamos horas de antena e rios de tinta com polémicas intermináveis sobre identidade de género e pronomes para que ninguém se ofenda, discussões morais em torno de casos privados, transformados em escândalos nacionais ou batalhas simbólicas sobre linguagem, legislação performativa e gestos “virtuosos” que não mudam nada de estrutural.

Não se trata de dizer que não há ali temas que mereçam discussão. Que os há, há! O problema é a desproporção em que colocamos a “problemática dos pronomes” e a ideologia de género no centro da arena pública, como se isso fosse o eixo da nossa sobrevivência enquanto civilização ou como se fosse de primordial importância saber se uma determinada “miss” é homem ou mulher. Enquanto isso, o resto do mundo está a jogar um jogo muito mais duro.

Enquanto discutimos obsessivamente o micro-drama moral do dia ou se boicotamos o Eurofestival por causa da participação de Israel, outros países, sobretudo fora do Ocidente, estão a garantir cadeias de fornecimento de matérias-primas estratégicas, estão a investir em infraestruturas críticas em África, Ásia e América Latina, reforçam exércitos, marinhas, sistemas de defesa aérea, ciberdefesa e planeiam políticas demográficas e educativas com um horizonte de décadas.

Nós, pelo contrário, vivemos em ciclos de 24 horas de indignação nas redes sociais e sondagens semanais.

Para piorar, passámos anos a ser educados para ter vergonha da nossa própria história. O eurocentrismo, em vez de ser analisado criticamente e colocado no seu contexto, foi transformado num pecado original, num anátema e foi convertido num verdadeiro tabu. A narrativa dominante passou a ser: “Somos os maus da fita da História, logo devemos calar-nos, pedir desculpa e aceitar tudo em nome da culpa.” O problema é que um continente que tem vergonha de si próprio não consegue defender nada, nem fronteiras, nem valores, nem interesses. Quem olha para o passado só para se autoflagelar, fica sem força para projetar o futuro.

E voltamos ao provérbio: “os cães ladram, mas a caravana passa” como me foi dado a ler num mural do MRPP alguns meses após o 25 de abril de 74. Latimos muito nas redes sociais, nos parlamentos, nas cimeiras, multiplicamos comunicados, resoluções e frases sonantes, cancelamo-nos uns aos outros por divergências de opinião.

Mas a caravana que está a passar não é a nossa. A caravana que passa é a dos blocos que estão a consolidar poder real e não apenas narrativas. E, quando acordarmos totalmente para isto, o jogo pode já estar muito avançado e nós iremos ficar limitados ao papel de comentadores indignados da nossa própria irrelevância, como se tivéssemos sido repescados a preço de saldo por um qualquer canal de TV à beira da falência.

O que seria preciso mudar, em primeiro lugar, era aceitarmos que não precisamos de governos “bonzinhos”.  o que precisamos realmente é de governos sérios, com prioridades claras tais como:

  • Na defesa e segurança, com forças armadas credíveis, ciberdefesa real e alianças sólidas mas com autonomia estratégica.
  • Na energia e indústria, dependendo menos de regimes hostis, recuperando a nossa capacidade produtiva e apostando em inovação com os pés na terra e sem unicórnios.
  • Uma educação mais exigente para formar cidadãos capazes de pensar, criar e empreender, sem doutrinação ideológica, para não repetir apenas os slogans ideológicos do momento.
  • Reforçar a nossa identidade civilizacional, de forma responsável e sem cair em delírios imperialistas, mas assumindo que a cultura europeia tem valor próprio e merece ser defendida. 

E, sobretudo, recuperar uma coisa muito simples que é a noção de prioridade. Sim, podemos discutir pronomes, identidades, casos mediáticos e tudo o resto, mas não pode ser isso a ocupar o centro do palco enquanto o futuro estratégico do continente fica em segundo plano.

Portanto, ou voltamos a ser adultos, ou ficamos reduzidos a figurantes. A Europa já provou, ao longo da História, que é capaz de se reinventar, até mesmo depois de duas guerras devastadoras. A questão é se ainda temos vontade de o fazer ou se preferimos continuar neste estado de adolescência moral permanente, assumindo a infantilização que nos tem sido imposta por Bruxelas, onde tudo é performance e muito pouca coisa é substância.

Se continuarmos assim, a frase “os cães ladram, mas a caravana passa” vai deixar de ser só uma imagem irónica e vai passar a ser a descrição exata do nosso lugar num mundo onde outros terão o poder, os recursos e a influência como, de resto, já podemos começar a ver.

Nessa altura, o que nos vai restar, serão as comissões, os códigos de conduta, os subsídios e a sensação confortável de estarmos “do lado certo da História”, como se isso garantisse a subsistência dos nossos descendentes. E, mesmo assim, só até ao dia em que a História decidir que já não contamos para grande coisa.

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