Com um subtítulo mais xenófobo do que o cartaz que pretende criticar…
O artigo de João Duque, publicado com o título “Isto não é o Bangladesh”, publicado no Jornal Expresso de 06/11/2025, é apresentado como uma crítica a um cartaz provocador de André Ventura. Mas, paradoxalmente, o seu subtítulo: “porque os bengaleses não precisam de nós como nós precisamos deles”, carrega uma carga muito mais xenófoba e racista do que o próprio texto do cartaz original.
Enquanto o cartaz de Ventura tem uma intenção clara de provocar debate público e gerar reflexão política, o texto de Duque parte da ideia profundamente paternalista de que os bengaleses são uma classe de pessoas destinadas a servir, a entregar comida, conduzir TVDE’s, apanhar fruta e trabalhar em restaurantes precários. E essa visão, ironicamente, coloca os bengaleses numa posição subalterna e reforça a existência de uma hierarquia moral e económica entre “nós” e “eles”.
Começo pela falácia da dependência, em que o autor constrói toda a sua argumentação com base na ideia de que dependemos totalmente desses serviços. Como se Portugal parasse sem entregas de comida ou sem motoristas ligados a plataformas e aplicações de smartphone. Todos sabemos que esta generalização não corresponde à realidade, pois muitos portugueses, talvez a grande maioria, não utilizam TVDE’s, não recorrem a entregas de refeições e nem sequer frequentam os espaços onde esses serviços são mais visíveis.
Os melhores restaurantes do país, os de verdadeira excelência, não sei se o autor conhece algum, não dependem exclusivamente de mão-de-obra estrangeira, e continuam a funcionar com equipas mistas, integradas e competentes.
E há em Portugal quem viva muito bem sem precisar de nenhum desses serviços, que só se tornaram centrais durante o período excecional que foi o dos confinamentos forçados de uma “suposta pandemia”. ATENÇÃO que não estou aqui a negar a existência da pandemia! Mas, antes disso, ninguém sentia falta de aplicações para mandar vir jantar ou de condutores que substituíssem os táxis. São estas, comodidades recentes, não necessidades humanas.
Depois temos a ofensa gratuita aos emigrantes portugueses em que João Duque vai mais long e: tenta comparar a relação entre portugueses e bengaleses com o comportamento dos emigrantes portugueses no estrangeiro. Chega a insinuar que os portugueses emigrados não respeitam regras, atravessam fora das passadeiras, sujam as ruas e vivem segundo padrões “atrasados”.
Essa caricatura é falsa e ofensiva, pois a esmagadora maioria dos portugueses emigrados trabalha com disciplina e honestidade, cumpre as leis e contribui de forma exemplar para as economias dos países que os acolhem. Portanto, reduzir milhões de emigrantes a meia dúzia de estereótipos é não só injusto, como também revela uma visão profundamente distorcida da nossa própria identidade.
No fim, o texto descamba para o insulto, insinuando que os europeus do Norte nos consideram “pequenos, castanhos e enfezados”. Ora, pequeno, castanho e enfezado talvez se sinta o autor quando viaja para algum desses países do Norte da Europa, não os portugueses em geral. E mesmo que o fosse, essa descrição física nada tem a ver com valor humano, dignidade ou inteligência.
Medir povos e pessoas pelo tom de pele ou pela aparência física é precisamente o que o autor diz combater, mas acaba por reproduzir. A obsessão com a cor da pele e o corpo revela mais sobre quem escreve do que sobre quem é descrito. Revela mesmo haver aqui um complexo pessoal de inferioridade projetado sobre o país inteiro, um desejo de ser visto como moralmente iluminado, mesmo sendo à custa de humilhar os seus.
A falácia dos “ordenados miseráveis” e dos “bens inalcançáveis” é por demais, gritante, pois João Duque escreve que precisamos dos bengaleses para “aceder a bens e serviços que nunca alcançaríamos com os nossos ordenados miseráveis”. Isto, além de ser uma generalização absurda, é uma falsidade. Os portugueses sempre viveram com dignidade, mesmo com salários modestos, sem precisar de um exército de estafetas para sentir progresso e sem necessidade de nos sentirmos superiores.
Temos então aqui um moralismo que pretende disfarçar o preconceito. O artigo de João Duque tenta travestir-se de empatia e consciência social, mas o resultado é precisamente o contrário ao mostrar uma visão hierarquizada, condescendente e moralista que transforma imigrantes em vítimas e portugueses em culpados.
“Isto não é o Bangladesh” felizmente, mas também não é o país onde intelectuais de sofá insultam o seu próprio povo em nome de uma moral fingida. Portugal é e deve continuar a ser uma nação livre, justa e orgulhosa da sua identidade.
Sem culpas herdadas, sem paternalismos importados e sem o falso moralismo de quem vive do ruído que critica.